De Natalie (Português)

Caríssimos,

Eu conheço muito bem os sentimentes de desesperança e auto-ódio que acompanham a depressão.  Eu sei o que é deitar à noite sentindo como se sua cabeça fosse explodir porque; cada preocupação que você já teve, cada coisa ruim que te disseram e tudo o que você deixou de fazer, ficam voltando a sua mente uma e outra vez, incessantemente.

Sei o que é viver com um coração tão pesado que te sufoca, e com olhos que se recusam a chorar.  Conheço a sensação do desespero puro de quem pede ao mundo uma chance, um caminho de saída, uma pílula ou qualquer coisa que resolva.   Mas também sei o que se sente ao romper o arame farpado e sair do buraco escuro  onde eu vivia cheia de raiva, amargura e culpa, para sentir o calor do sol escoar em minha pele, pela primeira vez em um longo tempo.

Não importa quanto tempo você tenha estado naquele buraco, a profundidade dele ou quão inútil pareçam as tentativas de sair.  Estou vivendo e sou prova de que  é possível respirar.  Não tomei uma pílula mágica para me curar da depressão e ansiedade, embora os medicamentos corretos tenham desempenhado um papel importante na minha  recuperação. O catalisador da decisão de que a depressão não me governaria mais, foi perceber que eu era boa o suficiente. Eu era digna o suficiente para viver uma vida feliz,  bem sucedida e satisfatória. Para mim, a recuperação é algo diário, no qual tenho que continuar trabalhando. Eu tenho sempre em mente que, ter um dia ruim não significa  que eu tenha uma vida ruim.  Aprendi a apreciar as pequenas coisas que eu nunca havia percebido antes, e que a vida é mais feliz sendo um otimista em vez de pessimista.
Percebi que ter um desequilíbrio químico que faz com que eu me sinta deprimida não significa absolutamente nada sobre mim.

Não sou mais uma menininha com medo e sem esperanças que culpa as pessoas por seus infortúnios. Eu sou uma pessoa forte, capaz, bela e independente que padece  uma doença mental. O que optei por fazer com tudo que lidei foi tentar beneficiar a mim e aos demais.

Estou aprendendo a me amar por tudo que sou e POR tudo que não sou.  Estou aprendendo que ser diferente não é um problema, a apreciar a mim mesma e a aceitar o que não posso mudar.

O primeiro passo na direção da recuperação, na minha opinião, é a decisão de recuperar-se.  Valorize-se e ponha um ponto final ao comportamento destrutivo, cerque-se de apoio e de influências amorosas enquanto se afasta das coisas negativas.  Seja bom para si mesmo, aconselhe-se como aconselharia a terceiros a quem amas e, não se desencoraje com algum um tempo difícil porque, eles virão um dia.  Caso precise de medicação, use-a com parcimonia.  Não há do que se envergonhar.  A recuperação é uma luta pelo seu bem-estar que você pode vencer.

Eu acredito que você pode vencer por dois motivos: você é especial, e o mundo precisa saber quem você é.

Com amor,

Natalie.


Translated by Raimundo Wenceslau